50 tons de mau gosto

Agora que o filme está saindo, vou eu aqui reciclar um post antigo do outro blog que fez sucesso na época que o livro ainda era febre. E aparentemente vai voltar a ser. Maldita Hollywood.

Minha intenção era a de salvar a história, confesso. Dizer que não era tão ruim, que me identifiquei com Anastassia Steele, que há lições de vida e de relacionamentos no livro. Mas não, não há. As únicas coisas que eu aprendi foram que eu divido fantasias sexuais com uma senhora de meia-idade (fazer sexo com um cara podre de rico) e que eu escrevo bem pra caralho.

Masoquismo: limpar esse gloss das algemas depois.

Enquanto eu estava lendo, fui fazendo uma listinha com algumas dicas do que não fazer contando uma história e, como todo mundo que tem blog ou lê blog é aspirante a escritor, achei legal compartilhar. Bora lá:

1. Stephan King disse uma vez que a estrada para o inferno é pavimentada com advérbios. Absolutamente, completamente, docemente, desnecessariamente. Isso vale também para conjunções adverbiais, por exemplo: “disse de maneira sensual” e, meu preferido do livro inteiro: “com um olhar de como quem diz: ‘não seja ridícula’”.

2. Essa é consequência do item 1, mas vale contar porque é um erro comum, sempre leio autores bons dizendo pra não fazer isso e era uma coisa que eu fazia quando achava que escrevia muito bem, obrigada, aos 15 anos: não descreva a forma como se fala. Até a J K Rowling aprendeu a não fazer isso mais. Sussurrou, gritou, disse com voz doce, ordenou, urrou. Urrou! Pontuação e contexto provavelmente darão conta de explicar o tom de voz dos personagens. Se precisar muito dizer que o personagem gritou, fique à vontade, mas tudo menos “ordenou docemente”. Estou até agora tentando entender que porra quer dizer “ordenou docemente”.

3. Ao se falar de partes íntimas, use a palavra mesmo, nada de “ele encostou ali” (em itálico, durante as quase 400 páginas do livro). Quantos anos você tem, pelo amor de Deus? Parece eu, na escola, falando do “voluminho” dos meninos.

4. E esse é o contrário do anterior. Não descreva exatamente o que as pessoas estão fazendo durante o sexo. Isso não dá tesão, dá nojo. Fica parecendo os contos do Marcelinho. Ou, sei lá, eu que sou fresca e prefiro ler as sensações aos atos mesmo.

5. Não repita frases feitas. A E L James parece que repete mais, quanto pior a expressão. Essa do “um olhar como quem diz ‘não seja ridícula’” aparece várias vezes. A calça de feltro (Christian Grey, um hippie) caída “daquele jeito na cintura”, seja lá o que isso queira dizer. Além da marca registrada do livro (que até virou piada entre meus amigos que nem leram o livro): “Está com fome? Não de comida”.

 6. Não sei vocês, mas acho bem mais legal ler um livro que tem uma história e no meio dela tem cenas de sexo do que o contrário. 50 Tons tenta ter uma historinha, mas os personagens não a sustentam. O primeiro beijo do casal só vem lá pela página 100, quando você não aguenta mais se perguntar por onde anda aquele sexo todo que as editoras venderam porque, francamente, foi pra isso que eu comecei a ler e realmente não me importo com a vida mal desenvolvida dos personagens planos e chatos.

7. “Intumescer” é a palavra mais feia da língua portuguesa.

E tem toda aquela parte do abuso, claro. Christian Grey é igualzinho ao meu ex-namorado abusivo, só que bonito e rico. E já passou da hora de parar de glamourizar relacionamentos abusivos, né? De qualquer forma, pelo menos o primeiro livro, vai agradar apenas dois tipos de pessoas: as que não lêem ou as que não fazem sexo.

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